O governo Jair Bolsonaro deve estar torcendo para seus seguidores mais fiéis acreditarem que ele é simplesmente otário e incompetente, sendo incapaz de gerir a coisa pública de forma decente, pois a outra opção é perceberem, enfim, que sua gestão é deliberadamente corrupta.
Prefeituras de municípios com escolas sem água e internet de Alagoas compraram kits de robótica de uma empresa que lucrou 420% com cada unidade. Adquiriu por R$ 2,7 mil, vendeu por R$ 14 mil, retorno que boas zebras nos sites de aposta pagam. Os recursos são do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), gerido pelo Ministério da Educação.
Se a empresa tivesse vendido pelo dobro que comprou, ainda assim teria sobrado o suficiente para comprar 15 cestas básicas por kit para ser distribuído às famílias dos alunos ou usada em merenda escolar, segundo dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). Mas não sobrou.
No total, o Estado recebeu R$ 26 milhões para comprar o material. Em ano eleitoral, licitações com sobrepreço se dividem em lucro fácil para empresários amigos da corte, mas também retornam como caixa 2 para os políticos que tornaram isso possível.
A investigação de Paulo Saldaña e Nathalia Garcia, da Folha de S.Paulo, mostra que a empresa que faturou um belo cascalho pertence a aliados políticos de Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados, sócio de Bolsonaro e líder do centrão, e que as prefeituras estão sob sua área de influência. Há indícios de direcionamento na licitação, dificultando a entrada de concorrentes que poderiam cobrar mais barato.
Até agora, Bolsonaro estava adotando a "tática do doido" para fugir dos escândalos em seu governo, repetindo, diante da lambança, que se passaram "três anos sem qualquer denúncia de corrupção em um ministério". Tal como a criança que quebra um vaso e, questionada, responde: "que vaso?" Estava funcionando, pois pesquisas de intenção de voto ainda mostram que uma das qualidades apontadas para Jair é que seu governo combate irregularidades.
Mas com as últimas revelações, usar a tática passa a ser arriscado junto a uma parcela do eleitorado que não acredita em tudo o que ele diz, mas ainda dá uma colher de chá ao presidente.
Ele terá que encontrar nova desculpa em breve. Eleições passadas mostraram que o eleitor até aceita fazer vistas grossas para escândalos de corrupção quando, pelo menos, a economia vai bem. Foi assim, por exemplo, com as denúncias do Mensalão, que não impediram a reeleição de Lula em 2006. Agora, contudo, temos inflação alta, desemprego, queda de renda, ou seja, desespero.
Nesse cenário, agir como doido é chamar o eleitor que passa fome de otário.
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Leonardo Sakamoto, jornalista - no Uol
Prefeituras de municípios com escolas sem água e internet de Alagoas compraram kits de robótica de uma empresa que lucrou 420% com cada unidade. Adquiriu por R$ 2,7 mil, vendeu por R$ 14 mil, retorno que boas zebras nos sites de aposta pagam. Os recursos são do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), gerido pelo Ministério da Educação.
Se a empresa tivesse vendido pelo dobro que comprou, ainda assim teria sobrado o suficiente para comprar 15 cestas básicas por kit para ser distribuído às famílias dos alunos ou usada em merenda escolar, segundo dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). Mas não sobrou.
No total, o Estado recebeu R$ 26 milhões para comprar o material. Em ano eleitoral, licitações com sobrepreço se dividem em lucro fácil para empresários amigos da corte, mas também retornam como caixa 2 para os políticos que tornaram isso possível.
A investigação de Paulo Saldaña e Nathalia Garcia, da Folha de S.Paulo, mostra que a empresa que faturou um belo cascalho pertence a aliados políticos de Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados, sócio de Bolsonaro e líder do centrão, e que as prefeituras estão sob sua área de influência. Há indícios de direcionamento na licitação, dificultando a entrada de concorrentes que poderiam cobrar mais barato.
Até agora, Bolsonaro estava adotando a "tática do doido" para fugir dos escândalos em seu governo, repetindo, diante da lambança, que se passaram "três anos sem qualquer denúncia de corrupção em um ministério". Tal como a criança que quebra um vaso e, questionada, responde: "que vaso?" Estava funcionando, pois pesquisas de intenção de voto ainda mostram que uma das qualidades apontadas para Jair é que seu governo combate irregularidades.
Mas com as últimas revelações, usar a tática passa a ser arriscado junto a uma parcela do eleitorado que não acredita em tudo o que ele diz, mas ainda dá uma colher de chá ao presidente.
Ele terá que encontrar nova desculpa em breve. Eleições passadas mostraram que o eleitor até aceita fazer vistas grossas para escândalos de corrupção quando, pelo menos, a economia vai bem. Foi assim, por exemplo, com as denúncias do Mensalão, que não impediram a reeleição de Lula em 2006. Agora, contudo, temos inflação alta, desemprego, queda de renda, ou seja, desespero.
Nesse cenário, agir como doido é chamar o eleitor que passa fome de otário.
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Leonardo Sakamoto, jornalista - no Uol
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