Facebook
  RSS
  Whatsapp
Sexta-feira, 04 de abril de 2025
Colunas /

Cultura

Cultura

cantidiosfilho@gmail.com

03/04/2025 - 09h45

Compartilhe

Cultura

cantidiosfilho@gmail.com

03/04/2025 - 09h45

Das coisas que não se esquecem

 

Ginásio Dom Inocêncio, em São Raimundo Nonato-PI, na década de 1960

 Ginásio Dom Inocêncio, em São Raimundo Nonato-PI, na década de 1960

Na remota década de 1960, estudei no vetusto Ginásio Dom Inocêncio, em São Raimundo Nonato. O projeto pedagógico do colégio se sustentava no tripé: disciplina, religiosidade, patriotismo. À época, era dirigido por padres espanhóis, da Ordem Mercedária, alguns franquistas declarados. Tinham verdadeira obsessão pelas comemorações cívico-religiosas. Nos feriados nacionais, obrigavam-nos a vestir uma ridícula “farda de gala” para ouvirmos dilúvios de discursos, na famosa “Rodinha do Bitoso”, no centro da cidade.

Uma tarde, no dia 1º de abril de 1964, o sino da capelinha começou a tanger. Pensei tratar-se da morte de alguém graúdo. Mas o dobre era festivo e não dolente. De repente, o padre Carlos Martinez, com seu narigão à Raul Cortez, adentrou a sala resoluto. Como de praxe, nos levantamos preparados para ouvir alguma reprimenda. Em tom solene, o diretor afirmou: “Deus seja louvado: o Brasil livrou-se do comunismo! Vocês estão liberados”. Livres do comunismo e da insuportável aula de matemática, arranjamos uma bola de borracha e improvisamos um “racha” na pracinha em frente ao Ginásio. Como em qualquer pelada que se preze, a advertência: “do pescoço pra baixo, tudo é canela”. Não sei como terminou o jogo, não me lembro se ganhei ou se perdi. O que nunca esquecerei: nos 21 anos que se seguiram, perdemos todas. Nada contra os que comemoram o 31 de março. Particularmente, eu gostaria que tudo não tivesse passado de uma simples brincadeira de primeiro de abril...

*****
Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais. 

Comentários